segunda-feira, agosto 14, 2006

para os olhos de quem os tem

Santa Teresa de Ávila
(1515-1582)



Vivo sin vivir en mí


Vivo sin vivir en mí,
y de tal manera espero,
que muero porque no muero.

Vivo ya fuera de mí
después que muero de amor; 5
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puse en él este letrero:
que muero porque no muero. 10

Esta divina prisión
del amor con que yo vivo
ha hecho a Dios mi cautivo,
y libre mi corazón;
y causa en mí tal pasión 15
ver a Dios mi prisionero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué larga es esta vida!
¡Qué duros estos destierros,
esta cárcel, estos hierros 20
en que el alma está metida!
Sólo esperar la salida
me causa dolor tan fiero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué vida tan amarga 25
do no se goza el Señor!
Porque si es dulce el amor,
no lo es la esperanza larga.
Quíteme Dios esta carga,
más pesada que el acero, 30
que muero porque no muero.

Sólo con la confianza
vivo de que he de morir,
porque muriendo, el vivir
me asegura mi esperanza. 35
Muerte do el vivir se alcanza,
no te tardes, que te espero,
que muero porque no muero.

Mira que el amor es fuerte,
vida, no me seas molesta; 40
mira que sólo te resta,
para ganarte, perderte.
Venga ya la dulce muerte,
el morir venga ligero,
que muero porque no muero. 45

Aquella vida de arriba
es la vida verdadera;
hasta que esta vida muera,
no se goza estando viva.
Muerte, no me seas esquiva; 50
viva muriendo primero,
que muero porque no muero.

Vida, ¿qué puedo yo darle
a mi Dios, que vive en mí,
si no es el perderte a ti 55
para mejor a Él gozarle?
Quiero muriendo alcanzarle,
pues tanto a mi Amado quiero,
que muero porque no muero.


Nada te turbe



(Letrilla que llevaba por
registro en su breviario)


Nada te turbe;
nada te espante;
todo se pasa;
Dios no se muda,
la pacïencia 5
todo lo alcanza.
Quien a Dios tiene,
nada le falta.
Solo Dios basta.

sábado, agosto 05, 2006

Marcaram de se encontrar naquela mesma tarde



Marcaram de se encontrar naquela mesma tarde. Matias iria a sua casa. Meu marido está viajando - disse ela ao telefone. Se conheceram numa praça de alimentação em um shopping próximo a escola onde ele estudava. Era um rapazote; dezessete anos, não mais. Havia esbarrado na moça e derrubado a coca-cola que ela carregava com todo cuidado, justamente para não esbarrar em ninguém. Enquanto seus amigos riam da situação, Matias, vermelho de vergonha pelo ocorrido, se apressou em pagar outra coca à moça. Muito gentil, a conduziu a uma mesa próxima, puxou-lhe uma cadeira e pediu desculpas mais uma vez. Quando já ia se afastando a moça pediu que ficasse e lhe fizesse companhia. Os amigos a esta altura já haviam sumido em direção ao cinema. Conversaram um tanto. Comentavam o ridículo da cena e riam um pouco. Ela se apresentou - Rita - se despediu e deixou discretamente um guardanapo com nome endereço e telefone. Junto com um beijinho estalado na bochecha do rapaz, deixou um recado no seu ouvido: liga.
Gostosura - pensava a caminho da casa dela. Chegando lá foi conduzido direto para o quarto. Me chama de gostosa ? e era mesmo, pensava ele ? pedia ela esbaforida com as mãos na pele tenra do rapazote. Em meio a pernas, braços, suores e afobadas linguadas, a moça começou a reclamar do sem jeito do rapaz. Em meio a certa frustração chega o marido. Uma porrada só abriu a porta. Não deu tempo nem para susto. Só sentiu um mão lhe puxando pelos cabelos e um grito no pé do ouvido: se é para levar chifre, fode direito, filho da puta! Sentiu sumir-lhe o sangue e a dureza. Vou ter que lhe ensinar a comer mulher, seu frango? - disse o marido já arriando as calças e se metendo no rego do rapaz ainda engatado na moça. O menino ainda contraiu o anel tentando preservar sua macheza, ao que um tapa na banda da bunda o fez ceder a pressão. Ouviu ao pé do ouvido: segue o meu ritmo. Saiu dali comparado somente ao incomparável marido de Rita, sabendo de tudo o que ela queria de um homem, e ele também.
Marcaram de se encontrar naquela mesma tarde. Roberto iria a sua casa. Meu marido está viajando - disse ela ao telefone.

curiosidades



oposto complementar

a media luz



para Ana Flor



Para Ana Flor Ana Flor - Kurt Schwitters



Ó amada do dos meus vinte e sete sentidos, eu ti amo!
Tu, teu, te a ti, eu a ti, tu a mim ---- nós?
O que, diga-se de passagem, não tem a ver com isso!
Quem es tu, inumerável Dona, tu és, és tu?
As pessoas dizem que tu serias
Deixa-as dizer, elas não sabem o que é ou não é.
Tu usa chapéu nos pés e caminhas sobre as mãos
Sobre as mãos caminhas
Olá, os teus vestidos vermelhos serrados em brancas pregas
Vermelha é que amo Ana Flor, vermelha é que eu ti amo.
Tu, teu, te a ti, eu a ti, tu a mim ---- nós?
O que tem a ver, diga-se de passagem, com a fria paixão!
Ana Flor, vermelha Ana Flor, o que dizem as pessoas?
Questão de um concurso:

1 - A Ana Flor falta um parafuso
2 - Ana Flor é vermelha
3 - De que cor é o parafuso?


Azul é a cor do teu cabelo amarelo,
Vermelha é a cor do teu parafuso verde,
Tu rapariga simples em vestido de todos os dias
Tu, querido animal verde, eu ti amo!
Tu, teu, te a ti, eu a ti, tu a mim ---- nós!
O que, diga-se de passagem, pertence à ---- caixa das paixões*
Ana Flor, Ana, A----N----A
Deixo cair uma gota do teu nome
Teu nome goteja como sebo derretido de vaca
Sabes Ana? será que sabes?
Podemos ler-te de trás para diante
E tu, tu magnífica entre todas,
És por detrás como por diante
A----N----A
Sebo de vaca goteja CARÌCIAS sobre as minhas costas,
Tu, imbecil animal!
Eu ---- ti ---- amo!



* braseiro/lixo

quinta-feira, abril 13, 2006

horóscopo diário - vênus trígono marte




Expressão apropriada


Este trânsito normalmente provoca predisposição ao amor, luxo úmido e teso de tendão tenso dando-lhe vontade de estar com alguém no sexo, um oposto, um outro em si, meta e medida de si. Porém há alguns problemas. Se agir com ciúme, fúria, terror e possessividade, seus sentimentos poderão sufocar sua parceria, lançar-lhe na danação da situação do sem escala, do sem medida, do sem limite, do que não existe em forma de ser, corpo oco, vazio, fosso seco, açude fendido no seu fundo.


Reconheça. Apalpe. Aperceba. Perscrute. Procure o relacionamento até nos mais íntimos espaços. Procure. Fenda-se, escavuque-se, nem superprotetor nem repressor; nem aquém nem além; doravante. Sua parceria não precisa de outro pai! Nem mano irmão meigo carinho de primo mais novo sobrinho recém nascido. Entretanto, normalmente possessivo no amor o problema ocorrerá: transmuta-se numa espécie de amor muito aconchegante, que ampara, apoia, consegue, toma , bebe. A pessoa amada. A emoção por si só que não é boa nem ruim; apenas precisa.

quarta-feira, abril 05, 2006

o que o meu corpo abriga nestas noites quentes de verão


Down em Mim
Cazuza
Composição: Cazuza / João Donato

Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou me esquecer
Pois nestas horas pega mal sofrer
Da privada eu vou dar com a minha cara
De panaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Down... down

sexta-feira, janeiro 20, 2006

meu querido diário - ruídos

Paciência e perseverança *** Válido durante muitos meses : Este trânsito representa um período de demolição, desdobramentos críticos. Vários fatores externos colocarão sua resistência à prova, dando-lhe a impressão de não conseguir, não conseguir, não conseguir, não conseguir manter sua liberdade de ação em nada do que estiver fazendo. É possível que sinta um excepcional desânimo neste momento. Para aqueles que acreditam, sua vitalidade estará em baixa. Talvez o melhor seja não lutar muito contra as adversidades que porventura surjam agora e o descabeçado cansaço. Procure imbuir-se de paciência e perseverança até que seu nível de energia esteja mais alto. Provavelmente haverá problemas no trato com autoridades altimetrica, como patrões, representantes do governo ou mesmo seus pais. Inferno! Você sentirá como se eles lhe opusessem resistência, não aceitando seus planos e sugestões. É recomendável destilar um monte de pequenas bombas relógio e espalhar por ai pelo prazer da importância da opinião contrária, de saber que um dia tudo pode explodir. Agir com mansidão, toda a paciência para tentar fazê-los concordar com seu controle de qualidade. Ponto de vista. Não fuja do confronto, mas também não lute às cegas porque isso o derrotaria. Este período está diretamente relacionado com um momento, há cerca de sete anos, que representou o início de uma nova fase em sua vida. facas e lâminas voavam controladas por um pensamento claro, uno vontade e movimento. Este trânsito se torna ainda mais difícil pelo fato de que diversos projetos iniciados naquela época vêm correndo muito bem, fazendo com que o mundo trabalha com questionamento todo vá para o inferno ou se vá para o inferno soziho; por quê havemos de ir para o inferno juntos? os atuais problemas surgirem de modo refratário, completamente inesperado. Entretanto, este é um período de provações, que demonstrará se esses novos inícios eram luzes, relampagos, trovões, o mar em fúria, todos válidos; que lhe cortem a cabeça. É provável que tudo que não o seja fique à beira do mar, da escada, do lago, do fosso, do monte, do precípício, daquela praça, da doideira seminal, do caminho, à margem. Sua reação talvez seja julgar a transposição, tudo um fracasso, mas é possível que no momento não esteja em condições de perceber o calor do enxofre em combustão, exatamente o que se passa, principalmente se não estiver muito atento. É possível que não consiga concretizar seus objetivos agora, mas seja paciente e certifique-se de estar no rumo certo. Se realmente estiver, este trânsito será uma provação e não uma derrota. Mal-caratismo de todas as opiniões, mas não são todas. Porém, mesmo que venha a ser negativo, você ainda poderá realizar muita coisa se transferir suas energias demandando - grita, grita, grita - áreas mais produtivas. inferno da pedra! existe uma coisa muito boa na pura e simples manipulação de qualquer coisa, no caso, o meu querido diário: é a de materializar uma coisa no mundo. alterar as micro-estruturas.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

desenho

"Mas não quero me meter com gente louca", Alice observou."Oh! É inevitável", disse o Gato: "somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca." "Como sabe que eu sou louca?" perguntou Alice."Só pode ser", respondeu o Gato, "ou não teria vindo parar aqui."

Alice no País das Maravilhas
Lewis Carrol

and my heart beats so that I can hardly speak.



and I seem to find the happiness I seek

in heaven everything is fine






closer



...

quem quiser que conte outra - brincadeira entre amigos: quem quiser continuar a brincadeira escreva o próximo parágrafo




Maravilhosamente lindo! Odeio começar coisas com advérbios, mas vá lá... Sou lindo!

Divertido é falar qualquer bobagem e ter um público doido para "lambetelhorgasmomaravilhaaê" comigo, ouvindo e achando tudo supimpa. Todo e qualquer comentário, por mais idiota que seja, será encarado com bom humor, uma tirada bem sacada, "incorpora" um tipo, sabe? Aquela coisa? Montar personas, ids e alter egos, e ainda, se der sorte, ouvir o comentário saído do fundo do coração de uma mente pantanosa doida para lhe meter a boca no pau: vai para televisão! Atuando você seria um sucesso! Melhor ainda é quando alguém concorda de verdade.

Fazer arder o desejo dos sexos. De púberes adolescentes a idosos com olhos de raio x adivinhando o que vai por debaixo das roupas de cada qual. Tem quem fique levantando questão sobre sexualidade ou inventando algum blá-blá-blá moralizante psicanalítico qualquer, mas o fato é, quem não lamberia da língua ao céu da boca o substantivo da coisa, digo a beleza do meu rabo ou o belo do meu caralho?

Pela frente, pelo verso, vamos comê-lo cru.

Papo de bar: você pratica esportes radicais? Eu também, a dois. De vez em quando a três, de quatro.

Essa coisa da pós-modernidade e a dissolução do sujeito na vertigem do vortex da imagem do vídeo é um fato, mas como é pueril. Tédio! Ai me aparecem aquelas com ar de gazela trepidante, caras e bocas, olhares lascivos como se fosse um set de filme ruim, aquela coisa de lésbica de fita softcore, sempre submissas ao desejo de punheteiros machos dominantes, desses que dão sono. Pior que os dominados somente os dominadores. Esses mestres SM são um povo tão idiota que nem passa pela cabeça que deliciosa tara seria degolá-los como galinhas. Lembrá-los de que poder humano algum é maior que uma jugular rompida. Voltando ao assunto, nessa história dessas criaturas "gazelas trepidantes" o melhor é dar bola enquanto elas contunuam, ai você torce para que elas tropecem, caiam de cara e levantem descabeladas, se possível com o salto do sapato quebrado, o que causa um delicioso andar manco, um ar de escoliose.

O bom de ser bonito é saber que o mundo me permite sem fazer muitas perguntas. Então eu venho e vou, jogo um charme e tá tudo certo. Nesse meio tempo presto um serviço de utilidade pública, destruo imagens pessoais meticulosamente construídas. Flagro desejo. Surpreendo intimidade. Intimidade é aquela coisa que acontece quando ninguém está prestando atenção nem mesmo a gente. Sabe? Quando lhe chamam de ?neném? e você responde? Auto imagem é quando se pensa: "neném? Éca!".

segunda-feira, dezembro 19, 2005

alter ego

bonecas bahianas

estas bonecas fazem parte do acervo de um museu, que não lembro o nome, no Pelourinho, Salvador. São do final do séc. XIX e eram feitas por escravas. Os cabeloe e unhas são de seres humanos.




sábado, novembro 19, 2005

malevich





Tinha um hábito muito peculiar


Tinha um hábito muito peculiar. Adorava correr nua para o teto do prédio quando passavam helicópteros. Se divertia com a possibilidade de acidentes aéreos. Vinha doida subindo as escadas tirando a blusa e jogando longe o sutiã. Parava com um ar coquete bem no meio da laje e se tremelicando toda levantava os braços. Inventara uma maneira de tremer-se toda, bem rápido, de modo a balançar bastante os seios. Acreditava que por algum efeito óptico qualquer, do helicóptero seriam vistos três seios, o que provocaria o possível acidente. Ria-se de cair no chão, às gargalhadas. Endiabrada, sabia que somente poderia ser vista de cima. Nenhum vizinho a veria nunca, e se vissem, pensava sempre deliciada com um sorrisinho: fodam-se. Havia prometido a si mesma dar especial atenção as suas próprias baboseiras. Desenvolvera uma teoria: o mundo das pessoas comuns é na verdade um diabo chato e avarento sem imaginação e nada divertido que queria dominá-la, por dentro, nos pensamentos, nos pequenos hábitos, naquilo que ninguém tem nada com isso de modo a torná-la chata e avarenta, sem imaginação e nada divertida.
A coisa mais sublime era quando, diante de algum argumento estruturado e moralizante, repetia a mesma sentença e alterava seu sentido levantando a sobrancelha, ou fazendo alguma mensura idiota de modo a comprometer o sentido da fala, mantendo uma postura concentrada e dramática de quem absorve aquele argumento a ponto de colocá-lo na lapide do túmulo. Era tida por sonsa; professores, chefes, parentes e figuras hierarquicamente superiores, era uma unanimidade, coisa de gente burra.
Ouvia atentamente as histórias de sua avó com quem, desde pequena, combinava as histórias mais absurdas para comentarem com a família na mesa, ou na frente da televisão. Crimes fantasiosos, datas comemorativas inventadas, teorias conspiratórias de todo tipo que eram repassadas a vizinhos, conhecidos, nos ônibus, estações de trem. Sempre uma seita nova para acabar com o mundo ou a morte prematura de algum famoso amado por todos. Quanto mais famoso, mais morria. Uma carnificina impar. Vírus asiáticos que chegavam nas malas de turistas. Sucuris do pantanal nos esgotos das cidades. Jacarés de água salgados confundidos com tubarões e sempre uma autoridade escondendo os fatos para não causar pânico nas populações. Vez por outra dava certo e acabavam pré-noticiando a morte de fulano ou cicrano, o que provocava sempre grande alvoroço na casa. Gritos triunfantes: ?morreu?. Parecia final de copa do mundo. Na falta do que fazer, iam ao velório compartilhar com os fãs memórias inventadas. Nada mais divertido do que vovó partilhando memórias de fulano com sua netinha e um curioso acreditando em tudo e com olhos crédulos dizendo: disso eu não sabia.
Com a ajuda de sua avó, atormentava as crianças do vizinho da casa da frente com supostas histórias do jornal de anteontem. Seqüestro de crianças cuja descrição sempre coincidiam com as do público ouvinte. Maníacos, tarados, um vasto repertório de criaturas bizarras escondidas por trás de respeitáveis senhores de terno e velhas loucas com cabelo desgrenhado que moravam nos finais das ruas. Era batata, todo fim de rua tinha, fatalmente, uma velha louca de modo que se no final de uma rua não se desse de cara com uma velha louca de cabelos desgrenhados carregando crianças em um saco é porque se estava no começo da rua. O final da rua seria do outro lado, como dois e dois. Certa vez, chegaram supostamente a ligar para a polícia, denunciando os pais dessas crianças após constatarem a semelhança do casal com um casal de rufiões, ao que as crianças somente reagiam dizendo: mentira, papai trabalha na farmácia; ao que vovó respondia: o velho truque da farmácia, sei. Por anos a menina do meio procurou na multidão aquela que seria a sua cópia e a qual deveria matar antes que fosse morta e seu lugar na família tomado por aquela falsa criatura que, então, passaria a ser ela mesma. Com o mais velho foi pior. Esse passou muito tempo tentando lembrar de quando teria matado o seu original e tomado o lugar desse suposto nos braços de sua mãe e pai até que chegou a impressionante conclusão de que se fosse ele o outro, ainda assim seria ele mesmo o outro, o que não faria diferença nenhuma. Quanto ao assassinato, concluiu que não há corpo sem crime, ou crime sem corpo, enfim.
Tinha obsessão pelo método. Sabia que seguindo à risca qualquer receita de bolo, sairiam bolos medonhos ? conselhos de sua avó ? e fazia bolos metodicamente preparados e ficava ansiosa olhando pelo vidro do forno até vê-los murchar invariavelmente. Somente ficava mais feliz quando o bolo dava certo, o que implica dizer que sua teoria dava errado e que não havia receita possível para controlar a possibilidade do sucesso do bolo, nem o contrário disso.
Por essas e por outras nunca acreditou em telejornais. Sempre pensava na criatura que estaria por trás daquelas histórias e as histórias que sairiam daquela primeira história se repetindo e se modificando a cada comentário feito dos diversos pontos de referência possíveis. Depois substituiu essa visão das coisas por uma teoria fatalista que dizia que nada é determinante. Se alguma coisa é determinante, essa coisa estaria acima de alguma lógica humana possível de modo que ela, como ser humano compreendido dentro das suas possibilidades de percepção e raciocínio, refutava qualquer argumentação indutiva afirmando a impossibilidade das coisas serem diferentes do que eram. Sempre poderia se chegar um segundo antes ou depois da bala fatal, bastaria se adiantar ou se atrasar por algum motivo. Ou se o atirador fosse míope e o alvo fosse outro que não o alvo atingido? E se o atirador levasse na cabeça um cocô de passarinho? Um espirro? E se o atirador fosse um suposto traído e perdoasse, por algum motivo, o traidor? E se o traído chegasse a conclusão que sua vida é bem melhor longe de pessoas que traiam sua confiança e fosse a praia? Praia é sempre solução para todas as coisas. De modo que sempre haveria milhões de maneiras de não se estar na frente da bala quando do tiro, ou o contrário, sempre haveria milhares de maneiras de se estar diante de uma bala quando de um tiro. Ao que se conclui que o Santos Dumont tendo escapado de todos os tiros possíveis, perdoado todos os traidores possíveis e sido perdoado por todas as traições possíveis, inventou o avião, o que alterou consideravelmente o destino do planeta, não só da humanidade. Esse raciocínio compreende as baleias brancas e os passarinhos sem asa da Oceania, que por sua vez, caso tivessem asas poderiam ser de vários outros lugares que não a Oceania, nem mesmo havendo motivo aparente para que fossem habitar justamente a Oceania e serem caçados por atiradores que poderiam ter, acidentalmente, acertado o Santos Dumont que, morto, não teria inventado o avião. Poderia ainda o passarinho ter sido pego pela hélice do avião e danificado o motor sendo tudo muito mais fantástico e vexatório e feito com que as pessoas, desacreditadas pelo vôo frustrado em função do passarinho, chegassem a entender que não seria possível o avião em função dos passarinhos sem asas da Oceania que, tendo asas, seriam de todos os lugares e, portanto, uma ameaça à aviação mundial. Enfim.
No seu conceito de acidentes aéreos constavam alterações de rotas, pequenos atrasos que seriam determinantes no desenrolar da vida das pessoas envolvidas e o seu papel na história da humanidade daí por diante. A teoria das balas funciona também para carros e atropelamentos, naufrágios, raios, hecatombes nucleares entre outros. Alias, adorava o termo hecatombe. Achava melhor do que ?porra?. ?Porra? era, sem dúvida, um termo muito bom de se dizer; tem energia, é concentrado e enche a boca, mas ?hecatombe?, compreende todo um continuo que acaba com um biquinho e um queixo mole, uma boca entreaberta entre o perplexo e o abobalhado, soberbamente imbecil ? pausadamente: he ca tom be! maravilhoso. Bom, mas voltando ao assunto, por exemplo, um atraso de trinta segundos seria determinante no atropelamento, ou não, de alguém que estivesse nos helicópteros. Pensava: e se estiver no helicóptero o inventor do tele-transporte? A sua participação na história do mundo seria determinante ao tremelicar nua no telhado de um prédio. Ai poderia ser inventado o tele-transporte que por outro lado poderia possibilitar que ela pudesse tremelicar dentro dos helicópteros provocando acidentes aéreos mais enfáticos e depois poderia ir para praia e ler no jornal a história feita em cima da história que ela inventou. Mas pensava também que o tele-transporte poderia levá-la a vários outros lugares não programados. Sabe-se lá, digitar errado o e-site. E se fosse por coordenadas georeferenciadas? Como se chegaria a um helicóptero em movimento? Poder-se-ia transportar partes das pessoas? Quem sabe poderiam aparecer dentro do helicóptero dois seios tremelicando? Seria um acidente e tanto. Imaginava então: três seios em efeito óptico soltos dentro do helicóptero. A cara do piloto. Seria um delírio! Quanto a mortos e feridos, salvar-se-iam todos, afinal, tele-transporte serve pra isso: transportar alvos, atiradores, traidores e traídos para antes ou depois das balas. E as balas tele-transportadas? Essas iriam a praia, enfim, praia é solução p

sexta-feira, novembro 04, 2005

tô dando um tempo

Não que eu queira uma vida dissoluta
Mas está me faltando assunto para estar entre os vivos

quinta-feira, outubro 20, 2005

Cala a boca, Bárbara

Cala a boca, Bárbara

Chico Buarque - Ruy Guerra
1972-1973

Ela sabe dos caminhos
Dessa minha terra
No meu corpo se escondeu
Minhas matas percorreu
Os meus rios
Os meus braços
Ele éo o meu guerreiro
Nos colcões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca
Olha o fogo
Cala a boca
Olha a relva
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

Ele sabe dos segredos
Que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer
Em que pântanos beber
As vazantes
As correntes
Nos colchões de ferro
Ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai
Cala a boca
Olha a noite
Cala a boca
Olha o frio
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

Crônicas de um sedutor elegante - mais Antônio Maria por Joaquim Ferreira dos Santos







Crônicas de um sedutor elegante



José Castello


Joaquim: "Antônio Maria era movido a amor"
20.10.2005 | As crônicas de Antônio Maria, o grande boêmio, o grande romântico, o grande melancólico, estão de volta. ?Seja feliz e faça os outros felizes? (editora Civilização Brasileira), uma seleção de trinta e quatro delas organizada pelo jornalista e também cronista, de ?O Globo?, Joaquim Ferreira dos Santos, traz um subtítulo que pode parecer redutor: ?Crônicas de humor de Antônio Maria?. Mas só parece.

O realce do humor resume a face solar de um pernambucano com o coração carioca, que fez muita gente soluçar quando se punha a exercitar seu outro lado, o melancólico, consagrado em especial nas célebres canções do gênero dor-de-cotovelo. Como sofrer de melancolia e, ao mesmo tempo, ser cômico? Em suas crônicas, Maria exercitou, como poucos, essa ponte difícil, mas fundamental, entre a infelicidade e a felicidade. E essa coragem fez dele um grande cronista.

Maria foi um cronista prolixo que, até morrer precocemente, no ano de 1964, aos 43 anos, do coração, publicou nos jornais quase três mil crônicas. Como agüentou, como teve forças, para escrever tanto? De onde tirava tantas idéias? Joaquim Ferreira fez sua seleção pesquisando as páginas de ?O Globo?, da ?Última Hora? e de ?O Jornal? entre os anos de 1955 e 1964. O resultado é muito revelador, já que Maria pertence à tradição dos grandes cronistas brasileiros do século 20, como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlinhos Oliveira e Fernando Sabino, ainda que seja, provavelmente, o mais esquecido deles.

?Maria dizia escrever sobre o Nada?, Joaquim relembra em sua apresentação. ?Era quase uma antecipação de Woody Allen?. O interessante nas crônicas de Antonio Maria é que elas antecipam um tipo particular de liberdade interior, de afrouxamento das defesas retóricas e solenes, que se tornariam, depois, marcas do gênero. Maria talvez tenha sido desprezado porque, se tinha um pé no futuro, conservava o outro fincado, com teimosia, no passado. Aqueles que se julgavam modernos - ainda que muitas vezes não fossem - o viam como um passadista. E ele soube tirar proveito, muito proveito, desse lugar marginal que lhe coube.

Joaquim Ferreira dos Santos está lançando, ainda, um livro de crônicas pessoais, ?Em busca do borogodó perdido? (editora Objetiva, com lançamento previsto para o dia 26 de outubro, a partir das 19 horas, na butique Maria Bonita Extra, em Ipanema). Livro em que ele se afirma como um dos mais inspirados cronistas da nova geração. Joaquim tem, como Maria, uma sensibilidade especial para encontrar significado nas coisas desprezíveis. Para se encantar com as miudezas, com aquelas coisas banais que nem percebemos, com - como diz nosso preconceito - as bobagens. Tudo aquilo, enfim, que fica de fora do grande jornalismo. É sobre esse amor à crônica como lugar da liberdade e do anticonvencional, mas também da sensibilidade e da delicadeza, que ele fala na entrevista que se segue.


Lançamentos do cronista:
de organizador a autor Antonio Maria seria considerado hoje, certamente, um melancólico. É provável que nossos psiquiatras quisessem, até, tratá-lo com antidepressivos. E até mesmo, como fez o psiquiatra de Van Gogh em relação a sua pintura, quisessem ?curá-lo? de sua música e de seu estilo um tanto mórbido. Que importância tem, para você, essa reaproximação com um personagem como Maria?

A aproximação não é com o personagem, mas com a obra. O comportamento de Maria, o apaixonado radical ao estilo Vinicius, sempre carente de uma inspiração amorosa para produzir, é um detalhe. A Bossa Nova também não percebeu que por trás do melancólico havia um cara moderno, sofisticado. Ronaldo Bôscoli, já que Maria cultuava a fossa, o tratou como um passadista qualquer. Mas não era. Uma crônica como ?Seja feliz e faça dos outros felizes? mostra que, sob a aparência da melancolia, havia sempre o humor. Um humor não escancarado, nada óbvio, mas que brincava com aquela infelicidade toda. Não se levar a sério todo o tempo é uma maneira de sair da melancolia, de desfazer a imagem do chato, do deprimido de carteirinha.

As crônicas e músicas de Maria trazem algumas teses radicais sobre o amor. O ?ninguém me ama?, apesar de clichê da dor de cotovelo, mostra, ao mesmo tempo, uma fé inabalável no amor e ainda a consciência dramática de sua impossibilidade. Hoje, nos tempos do ?amor líquido?, como já definiu um sociólogo, o que resta para o ?amor duro? defendido por Maria?

Maria era movido a amor, como diria um clássico qualquer do clichê barato. Seu ?Diário?, lançado há dois anos, mostra sua busca da mulher ideal, da relação perfeita, da sintonia exata entre homem e mulher. Maria estava muito distante do cinismo de hoje, do ?ficar com?, do correr atrás. Foi um sedutor elegante que, segundo o depoimento das mulheres, usava a fragilidade, e não o machismo, como método de aproximação. Morreu buscando o amor, dizem até que morreu por causa da profunda dor de sua separação de Danuza Leão. Mas não acredito nisso. Ele tinha muitos problemas de saúde, principalmente problemas de coração, e apagou por causa dos excessos, e não das faltas.

Você é um especialista sensível nas coisas do passado, nas miudezas do cotidiano, nas experiências pequenas. Nesse sentido, o jornalismo que você pratica se opõe ao jornalismo dominante, das grandes manchetes, dos grandes escândalos, da novidade a qualquer preço. Maria, com sua melancolia e suas idéias românticas, parece ser hoje um personagem anacrônico. Qual o significado de seu interesse por ele?

Tenho pelo Maria o mesmo interesse que tenho por aquela geração de ouro de cronistas. Braga, Sabino, Mendes Campos, Carlinhos são todos meus ídolos, escritores que conseguiram uma temperatura perfeita entre literatura e jornalismo, a ponto de se integrarem com suavidade no corpo da revista ?Manchete?, que foi a primeira grande vitrine desse tipo de texto. Eu tento seguir esse caminho, busco um texto que se equilibre entre o literário, a experimentação, um dar de ombros para alguns paradigmas do que seja um texto de jornal, mas sempre de olho na leitura. Eu quero ser lido. Maria fazia exatamente a mesma coisa. Escrevia todos os dias, vou repetir, todos os dias em um jornal - ?O Globo?, ?Última Hora?, ?O Jornal? - e misturava alhos com bugalhos. Misturava reportagem policial com perfil com crítica com noticiário da noite com crônica e mandava o pau na máquina sem perguntar o que era o quê. Ao contrário de Braga, Mendes Campos e Sabino, ele se aproximava mais do texto jornalístico que do literário. Rubem Braga poderia ter acabado na Academia Brasileira de Letras. Maria, não.

Maria se interessava pelos sujeitos que caminham na contra-mão de seu tempo. Por exemplo, Adamastor, ?o estranho homem puro?, personagem de uma série de crônicas deliciosas. Homens anacrônicos, muitas vezes desagradáveis e rabugentos, mas que, com sua resistência ao presente, denunciam o que o presente tem de descartável, de tolo, de imprestável. Quando falava desses personagens, Maria estava falando de si mesmo?

O Adamastor está sendo publicado em livro pela primeira vez. Eu acho que o Maria ia de Adamastor quando estava cansado de falar na primeira pessoa. Nesse caso, o outro falava o que ele não tinha coragem de falar. Pela liberdade que se permite, são momentos de fino estilo. Eram momentos - digo aqui da minha varanda de sacadas - em que ele se cansava de ser politicamente correto e metia o pau no folclore, no respeito aos índios, no artesanato e outras mumunhas respeitáveis na época. O Adamastor devia ser metade o próprio Maria, sua face oculta. E, na outra metade, o desejo de descansar de si mesmo. Era a delícia da irresponsabilidade.

O humor de Maria é um humor delicado, sutil, que se opõe ao humor pesado de hoje, ao estilo Casseta e Planeta. Isso aparece, bem claro, quando Maria se põe a escrever um consultório sentimental. Está, por exemplo, na resposta que dá à consulente Cláudia Rúbia, uma mulher bonita que quer ingressar no cinema e lhe pergunta o que deve fazer. ?Comprar uma entrada?, Maria se limita a sugerir. Esse humor ingênuo, comparado com o humor feroz de hoje, não parecerá tolo?

Vejo semelhanças com o humor do Casseta, mas muito rápidas. Por exemplo, na maneira de Maria brincar com os personagens da atualidade e de não respeitá-los. Zoava dos amigos também, transformava o Caymmi, o Di Cavalcanti, o Vinicius em personagens. Lidas hoje, cinqüenta anos depois, algumas cartas do consultório sentimental podem soar ingênuas. Mas o PRK-30 também, os irmãos Marx também. Não podemos esquecer que ele passava parte do dia escrevendo piadas para as rádios e isso o obrigava a baixar um pouco a mão. Mas a produção de humor para os jornais, pela sofisticação e estilo, assegura um papel de destaque ao humorista Maria. Infelizmente, ele ficou marcado pela turba da Bossa Nova como um sujeito a ser detonado. Mas eram tempos de rancores radicais. Maria talvez sofresse mais que os Bôscoli da vida, talvez fosse menos bonito e mais pernambucano. Mas, com as palavras, estava na mesma sintonia da modernidade, como se pode atestar por muitas letras de música, todas solares e Bossa Nova total.

Maria foi apaixonado pela realidade. Em uma crônica, ?Ao povo mineiro no mundo inteiro?, ele oferece uma frase que sintetiza essa paixão: ?Basta que você deixe de interpretar as coisas?. Pegar as coisas de modo direto, sem volteios, sem complicações, é um atributo comum entre os grandes cronistas. Pergunto a você, que também é excelente cronista: por que essa maneira franca de narrar o mundo, mesmo entre os cronistas de mais prestígio, parece estar hoje em desuso?

Esses caras escreveram muito, nos sentidos de qualidade e de quantidade. Carlinhos Oliveira, que já pertence a uma outra geração, tinha um estilo bastante próximo do artigo jornalístico. Ele escrevia muito na redação e isso acabou impregnando seus textos de alta temperatura jornalística. Braga e Paulinho gostavam de uma cena menos veemente, mais lírica. O Maria é, talvez, uma passagem entre esses dois estilos. Escrevia, como você diz, de uma maneira franca. Seja ela o que for, acho que as crônicas de hoje precisam de mais veemência. Cá entre nós, já que ninguém está nos ouvindo: eu já não lia o Rubem Braga em sua fase final, quando ele publicava suas crônicas no ?Estadão?. Acho que o desafio da crônica, hoje, é encontrar o tom que não a torne um bichinho estranho no corpo do jornal. Nem quente e tensa demais, como se fosse mais uma matéria, nem lírica e lenta que desanime e afaste do leitor.

Em ?Café com leite?, Maria diz: ?O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina?. Essa redução da existência a dois elementos fundamentais e semelhantes, sexo e criação, talvez ilustre a maneira como Maria gostava de descomplicar o mundo, de simplificá-lo. Numa época como a nossa, de especialistas e jargões profissionais obscuros, que lugar sobraria para o modesto Maria?

A crônica é, por princípio e charme, um gênero menor. Mas é também um jornalismo metido a besta, com umas palavras que não costumam aparecer nas reportagens. Sou um apreciador do novo jornalismo americano, que mistura todos os gêneros: reportagem, ensaio, artigo, crônica, diálogos e o que mais couber. O Maria escrevia para ganhar dinheiro, como todos nós, jornalistas. Tanto que morreu sem publicar nenhum livro, seus livros são todos póstumos. Em suas gavetas, nada foi encontrado além de seu diário. Todo o resto do material reunido em livro foi recolhido dos jornais. Maria escreveu sempre pressionado pelos prazos e o bafo de um editor no cangote, arrancando-lhe o texto da máquina. Ele disse que escrevia um diário para escrever sem compromisso e com liberdade. Era um jornalista, não um literato. Sua palavra de ordem era: ?Qual é o trabalho que tem aí para fazer??

Você está lançando, também, um livro de crônicas que, aliás, tem um título, e também uma capa, muito inspirados. Como você chegou à crônica? E como você se vê, se critica, como cronista?

Eu comecei a escrever crônicas por acaso, no jornal ?O Dia?, do Rio de Janeiro, no ano 2000. Foi acaso mesmo: sobrou o espaço de um cronista e me escalaram para preenchê-lo. Eu preenchi. Depois fui para o ?Jornal do Brasil?, agora estou no ?Globo?, e continuam deixando que eu escreva minhas crônicas. Como o jornalista começou na frente e o cronista é recente, acho que ainda tem muito jornalismo no que escrevo. É uma constatação, não chega a ser uma crítica, eu sempre gostei de crônicas que se aproximam da reportagem. Espero chegar a um ponto em que nenhum desses gêneros fique com o rabo de fora e seja tudo ainda uma coisa a se classificar. A crônica é um gênero híbrido. Ela começa sempre pelo espaço do jornal e isso acaba impregnando o estilo. Braga resumia a coisa assim: ?Se a pensata não é aguda, é crônica?. Acho que a crônica deve ser leve, não necessariamente com muito assunto. Mas com estilo e originalidade e, de preferência, abusar da subjetividade, com direito a muito ?eu isso?, ?eu aquilo?.

Você ainda não disse quem é seu cronista favorito. Aquele cronista de cabeceira, que está sempre rondando, como um fantasma, às suas costas. Quem é ele? E como você vê os cronistas de hoje? Eles avançaram, ou retrocederam em relação aos cronistas ?clássicos??

Gosto, acima de todos, do Rubem Braga, que na verdade tem um nicho próprio dentro da crônica carioca. Sei lá o que é aquilo. Poesia? Conto? Nuvem? O Braga é um gênio absoluto, é tudo o que eu gostaria de ser um dia em que finalmente crescesse. Quanto à crônica de hoje, acho que ela está passando por um momento de transformação. Todos os grandes jornais têm cronistas diários, cada um com um jeito de escrever. Ou seja, todos concordam que o espaço é necessário. Quem o ocupa, isso fica ao gosto do editor. Muita gente escreve artigos nos espaços destinados à crônica. Eu persigo uma coisa no meio do caminho, com direito a vôos poéticos e bem pessoais, até o direito moderno de experimentar estilos e de salpicar tudo com jornalismo.


As reportagens vêm dos fatos, os artigos de fundo das idéias, a crítica vem dos objetos da cultura. As crianças nós sabemos de onde vêm. De onde vêm as crônicas?

Eu já escrevi uma crônica exatamente sobre isso, de onde vêm as crônicas. É um vale- tudo. Já escrevi crônica para uma palavra só, ?borogodó? - uma palavra antiga, que o dicionário define como um ?atrativo físico muito peculiar?. Já escrevi crônicas que eram perfis, como do Gay Talese. Reportagens, como o casamento do Luciano com a Angélica. Tudo, sempre, de um jeito desparagonado. Costumo definir a crônica como um quadradinho delimitado por um fio, e o editor escreve em cima: ?crônica?. O resto é com o autor. O bom cronista tira crônica de tudo e nisso o Rubem Braga foi imbatível. Tirava assunto de absolutamente nada.

Tirando o tal fio que a cerca e a palavra ?crônica? em cima, a crônica hoje parece um gênero esfacelado. A crônica clássica, ao estilo do Braga, já não faz mais sentido?

O esfacelamento da crônica é o reconhecimento de que a crônica tradicional, tal como o Braga e o Paulinho escreviam, não cabe mais nos jornais. Eles tinham uma levada e uma aproximação com a realidade que não combinam mais com os tempos de hoje. Ainda ficariam bem, talvez, numa revista. Ainda assim, os leitores dos jornais adoram as crônicas, o que é uma maneira de dizer que querem um texto diferente do resto do jornal. Eu sonho com o dia em que o texto de jornal seja tão original e personalizado quanto o das crônicas. Nesse caso, os cronistas ficariam liberados para radicalizar na experimentação e se tornariam definitivamente autorais. Acho que se faz muita crônica de cinema, muita crônica de psicologia, é verdade que algumas muito boas, nos espaços reservados às crônicas. Mas acho que esses textos estão no lugar errado.

quarta-feira, outubro 19, 2005

eu não amo a Catarina

hoje sonhei assim

eram casas à beira de um lago ou baia, não sei bem. as águas estavam agitadas. parecia mais uma ressaca. algumas vezes as águas apareciam como névoa, serração sobre um lago. via uma casa da minha varanda. a casa era de um estilo "americano, costeiro" muito próxima da beira d'água, amarela com detalhes em branco. as ondas chegavam a alcançar o segundo andar da casa molhando as varandas e davam a impressão que passavam pelas esquadrias e enchiam o quarto de água do mar. a casa em que eu estava era de um casal e conseguida por um conhecido meu. em determinado momento eu estava tomando uma ducha quando me aparece um coquer no banheiro. lembro ter imaginado que o casal dono da casa o teria deixado lá sem me avisar. em determinado momento andando pela casa imagino o perfil dos donos da casa: pessoas muito organizadas e preocupadas com sua aparencia e limpeza do ambiente. pouco depois, indo para a cozinha, encontro um casal que imagino serem os dono da casa. existe algo de vulgar nos dois. o marido parecia mais um amante meio bruto. a mulher era afetada. uma puta sem modos fantasiada de cafetina. achei estranho mas, por mim, tudo bem.

muda a cena

o fantasma de um homem me ataca no meio da sala. grita e me estrangula. fica gritando que aquela mulher simula a filha dele e que naquele momento ela esta na varanda travestida. por algum motivo ele me puxa para ver. aos gritos ele entra no quarto. agora ele se comporta como um marido e descortina as janelas para que eu possa ver a tal mulher. é noite.

outra cena.

o fantasma levanta de cima do corpo da mulher falsa com as mão cheias de esperma e as limpa no tecido da calça.

segunda-feira, outubro 17, 2005

lá vem o nosso alimento pulando!

"CATHARINE:
- Garçons, polícia, e outros-saíram correndo dos prédios e apressadamente subiram a ladeira de volta comigo. Quando retornamos ao lugar onde meu primo Sebastian desaparecera entre [o bando de crianças nuas], ele-ele jazia nu como eles estiveram nus contra uma parede branca, e nisso você não vai acreditar, ninguém tem acreditado, ninguém poderia acreditar, ninguém, ninguém na face da Terra poderia acreditar, e eu não os culpo!-Eles tinham devorado partes dele.

[Mrs. Venable reprime um grito.]

Rasgado ou cortado partes dele com as mãos ou as facas ou talvez com aquelas latas abertas violentamente, com as quais faziam música, tinham rasgado pedacinhos dele, enchendo suas bocas ferozes, deglutinadoras, pretas, pequenas e vazias com eles. Não se ouvia mais nenhum som, não se via nada senão Sebastian, o que restou dele, que parecia um grande ramo de rosas vermelhas embrulhadas em papel branco que foram rasgadas, jogadas, esmagadas!-contra aquela parede branca fulgurante. . ."

Extraído de Tennessee Williams, [De repente no último verão] (1958), cena IV. Traduzido do inglês por Veronica Cordeiro
Barbarism Begins At Home

The Smiths

Garotos desobedientes
Que não se tornarão adultos
Devem ser pegos pela mão
Garotas desobedientes
Que não acomodarão
Devem ser pegas pela mão

Uma pancada na cadeça
É o que você ganha por não perguntar
E uma pancada na cadeça
É o que você ganha por perguntar



She Said She Said

The Beatles

Ela disse: "eu sei como é estar morta
Sei como é estar triste"
E ela me fez sentir como se eu nunca tivesse nascido
Eu disse: "Quem pôs essas coisas na sua cabeça
Coisas que me fazem sentir mal"
E você está me fazendo sentir como se eu nunca tivesse nascido
Ela disse: "Você não entende o que eu digo"
Eu disse: "Não, não, não, você está errada"
Quando eu era um garoto, tudo estava bem
Tudo estava bem
Eu disse: " Apesar de você saber o que você sabe
Eu sei que estou pronto pra partir"
Porque você me faz sentir como se eu nunca tivesse nascido
Ela disse: "Você não entende o que eu digo"
Eu disse: "Não, não, não, você está errada"
Quando eu era um garoto, tudo estava bem
Tudo estava bem
Ela disse: "Eu sei como é estar morto
Eu sei como é estar triste"
Eu sei que isto é como estar morto